6:30. Depois de fazer tai-chi na cobertura do prédio, observando o horizonte, Maria Eduarda desce para sua sessão de pilates. Em seu íntimo, ela desce a escada já sentada em cima da bola, pogoboleando entusiasmo de gincana, mas se contém em sua serena serenidade.
7:00. Na mesa de café da manhã, como na bandeja do Xou da Xuxa, os alimentos servidos em sua maior parte não serão consumidos nunca, e só estão lá para dar a ideia de diversidade e poder de escolha dos rodízios de carne e de pizza, não havendo problema se fossem levados um a um no espeto por gaúchos de bombacha, “Presuntinho com melão, aceita?”, “Obrigada”. Não, seu desjejum une a simplicidade oriental à nobreza ocidental: linhaça dourada, granola real e ração humana.
8:09. Leitura de Vida Simples, a revista para quem quer viver mais, melhor e fazer um cocô branco e etéreo. Na edição deste mês o tema é Solidão. Maria Eduarda reflete sobre o próximo paradigma a ser mudado, o hábito nunca percebido e fica feliz contemplando num só pensamento que o ser humano é fluido e que aprender é viver.
9:02. Cuida um pouco da vida: coça-se um tanto, roçada pela folhagem, enquanto olha os emails no jardim interno — onde fica o computador, para que tecnologia e natureza caminhem realmente lado a lado —, envia as fotos de seu casamento na Índia para os antigos colegas da Waldorf e faz sua meditação diária enquanto joga o hipnótico Tetris.
10:12. Indecisa diante da geladeira, pondera por um minuto sobre nutrição, energia e psicologia antes de escolher seu minibrunch: Corpus ou Molico? Molico ou Corpus? Corpus, Molico; Molico, Corpus, o olhar vesgueia, confuso. Tudo com a porta da geladeira fechada, claro.
10:13. Acende um cigarro baixos teores no banheiro e aromatiza o ambiente com Pato Purific Pureza da Brisa ao sair.
10:22. Escolhe uma roupa para sair de casa, branca e leve, não muito diferente do pijama que estava usando. Seca os cabelos, sempre curtos, para se sentir sempre livre. Lá pelas 11:45, pronta para sair, tenta abrir a porta e sua mão atravessa a maçaneta, sem agarrá-la. Maria Eduarda está lentamente evanescendo. Só existe de manhã, e os momentos que antecedem o meio-dia servem de alarme para que tome tenência e flutue apressadamente até seu caixão de madeira orgânica certificada.
Cospe enquanto fala, e não é pouco. A cada 200 palavras, 100 são cuspe. Com esse dom — ou maldição —, eleva a cólera do interlocutor com o magnetismo de um encantador de serpentes lançando por sua flautinha melodias e cuspidelas na cobra, ora encantada, ora na defensiva.
Essa rica salivação também atrapalha sua, digamos, dicção, muito fluida, muito molhadinha, algo ruidosa, fervilhante, entremeada por estalos de bolhas de ar estourando no aguaceiro, efervescente, como se estivesse o tempo todo chupando Sonrisal, só na borbulhagem, e sua própria boca fosse o caldeirão da bruxa.
Admiravelmente, chegou a conseguir trabalho numa estação de TV local, apresentando a previsão do tempo no telejornal da manhã. Durou um dia no emprego. Quando entrou no ar ao vivo, já cuspindo uma borrasca de gotículas difusas, comunicando-se em língua diluviana, colocou a cidade em estado de atenção. Daí por diante, sua entrada foi proibida até para a demissão formal, feita por carta. As suas, pedindo desculpas, nunca foram respondidas, mesmo porque nunca foram lidas, mesmo porque derreteram no envio, de tão encharcadas que estavam.
Apelidos: guia turístico de Foz-do-Iguaçu, torneira de registro, sprinkler.
Em algum momento da vida o Clício faz um tratamento e celebra a cura estourando nervoso uma rolha de espumante. Mas os correios nunca terão entendido, nem os telespectadores, os familiares, os colegas de trabalho, o encantador, ou a cobra, findando a música, perguntando: ”Desculpa, eu guspi em você!”
Paula. Mas que Paula mesmo? A de olho castanho, cabelo ondulado, branca? Pode ser. Lóbulo preso, bico de viúva, nuca penugenta? Talvez. Uma que trabalhava na recepção, estava sempre na cantina, sobrinha do Márcio? Não sei, não lembro. Como lembrar? A Paula pode ter um olho de cada cor e apontando em direções diferentes, pode ter levado uma bolada nas costas que estourou cinco acnes de uma vez constelando de vermelho-pinball a camiseta branca de Educação Física, pode aparecer na entrevista com um relógio de pulso no tornozelo; ninguém vai lembrar dela.
Os gostos: banais, água-com-açúcar, intensos? Talvez um, talvez outro, talvez um mix de. Não se sabe, não se lembra, não tem como. Porto Seguro, Holambra ou Poços de Caldas? Flocos, creme ou groselha? Clarice, Lya Luft ou Bianca? Camboriú, nata ou Jorge Amado? Esqueça.
Se alguém entrasse numa sala de espera e encontrasse sentadas todas as paulas que já conheceu na vida, talvez parasse, ressabiado, passando de rosto a rosto, esforçando-se para compreender a situação, mas sem sequer reconhecer a sensação evocada, titubeante, de boca entreaberta, olhos penetrantes, surdo e já quase flutuando, e as letras P, A, U, L, A formariam o nome ou algum anagrama afim e piscariam uma débil luz mental, que se apagaria tão logo ele fosse pegar a senha com a Paula do atendimento.
Apesar dos 50 anos, sai na rua de chinelo estofado, imantado, ergonômico, com cara de microsystem. É um homem que quer ver replicado nos pés o conforto hi-tech de uma jacuzzi, mesmo que seja só para contrariar a esposa e ir até a esquina conferir se a lotérica ainda não abriu mesmo, e voltar a deitar cinco minutos depois, com o chinelo em cima da cabeça, pensando “Se isso não é conforto, eu não sei o que é isso nem o que é conforto”.
É o vizinho chato, que confundiria pega-pega com esconde-esconde se fosse transformado em criança pela fada-madrinha, mesmo com a memória da infância restaurada e a da vida adulta suprimida. Prefere e até adora não entender o comportamento infantil de hoje em dia, embora seja idêntico ao da época em que, especula-se, Márcio foi criança.
Sem a desculpa de ter sido militar, é o vizinho que não devolve a bola que cai em seu quintal. Quando tem uma folguinha, sai de casa calçando suas limusines conversíveis em miniatura, com a bola embaixo do braço e furando-a compulsivamente com um prego, ato que, se filmado com uma supercâmera lenta, mostraria as longas frações de segundo em que ele fica na posição de quem tem a bola embaixo do braço, embora ela já tenha estourado à primeira espetada muitos e muitos centésimos antes.
É fácil criticar Márcio, mas ele já tentou outra tática. No início, sempre devolvia a bola, e com extrema presteza, sem sequer sair de casa, rebatendo-a com força dobrada por trás do muro. O intervalo entre a invasão da bola e sua devolução era inferior a um segundo, simulando a função “jogging” do vídeo-cassete, o que sugeria a presença de uma máquina cuspidora de bolas em prontidão — uma máquina chamada Márcio. Muitas vezes as crianças tiveram a impressão de que a bola foi devolvida mesmo antes de sumir atrás do muro do quintal, mas os vídeos sempre saíram afoitos, tremidos, como registros de OVNIs. Pensava que ao restituir a bola com a fúria de um canhoneiro da Ponte do Rio que Cai, fúria demonstrada, na cabeça dele, por força e expediência, chegaria mesmo a assustar as crianças. Demorou algum tempo para perceber que um divertido minigame paralelo tinha se fundado em torno de sua falta do que fazer.
Seus cabelos são cacheados, às vezes ornamentados acidentalmente por pingentes aborígenes: galhos, folhinhas, frutos não-comestíveis e moscas-da-madeira, de tanto preferir as copas das árvores a tetos de concreto armado, compondo um delicado estilo natalino.
Voz grave, rouca, que só no exótico olá já manifesta sua personalidade — traço tonificado pela pedagogia construtivista e notado por todos amigos e parentes desde a entrada na adolescência, menos pelos avós, que trataram com naturalidade a fase e com desconfiança o deslumbre dos pais.
Entre usar a napa sintética rústica confeccionada pessoalmente pelo Dr. Robotnik e o couro tratado que sacrifica o propósito de sua dieta vegetariana, contenta-se em usar colchas de retalhos em formato de saiões, sapatilhas, casaquinhos.
Na necessaire, em vez de maquiagem, leva seda, fumo e filtro. O tabaco orgânico lhe agrada pelos nomes mágicos dos aromas, “girassol”, “purpurina”, “wizard”, “harmonia”. Para disfarçar o perfume bucal, serve-se de duas borrifadas de própolis antes de chegar em casa. Na falta, mastiga com naturalidade uma frutinha pendente do cabelo.
Tem buço; sempre tênue, mas nem sempre sedoso, porque o buço sedoso dura até os 13, 14 anos e dênis nunca aparam o buço — de um lado, por temerem que nunca mais cresça e eles fiquem presos na adolescência como no filme Feitiço do Tempo, só que num loop infernalmente maior; de outro, por medo de que cresça de volta, mas crespo, duro, espetado, conforme lhes dizem os leandros, e de que se transformem em sandros, ou pior, sérgios, ou pior ainda, lobisomens mesmo.
Usa aparelho e camisa pólo da Pool, da VL e outras que já estejam cheias de bolinha na segunda ou terceira lavagem, compradas em magazines por sua mãe — porque se importa tão pouco com isso que se tivesse que comprar as próprias roupas poderia muito bem sair da loja de pijama. Talvez no avesso. A camiseta pool é providencial para levar no bolso único da esquerda a caneta BIC de tubo laranja, técnica, de quem faz conta em papel gráfico.
Ri com os lábios acobertando os dentes, BV, gosta de computadores, até sonha com bits & bytes, mas desperta tenso com a polução noturna de cada noite.
Ocupações possíveis: eletricista, micreiro, eletrotécnico, estudante do SENAI, em suma, a sub-área de exatas que dá choque.